Neste Julho das Pretas, agenda das mulheres negras, de vanguarda feminista antirracista, no mês em que se destaca o Dia Internacional da Mulher Afro-Latino Americana e Afro-Caribenha, a luta das mulheres pulsa. Vibrante como um coração. A resistência pulsa!
A luta das mulheres negras, ancestral e presente em toda a história da humanidade – aliás, violentamente apagada da história oficial no mundo, da ciência, da literatura e da história da própria organização da luta das mulheres-, expõe de maneira mais sistemática, neste mês, as pautas que são específicas do cotidiano de quem sofre o machismo e o racismo juntos.
No Pará, essa violência contra as mulheres é gritante. De acordo com o mapa da Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social (Segup) publicado em março deste ano, o número de feminicídios cresceu 20% em um ano. A cidade de Ananindeua, na Grande Belém, está entre as mais violentas com as mulheres no Brasil. Em 2015, segundo o Ministério da Saúde, foi a cidade onde mais se matou mulheres no país. O Ministério da Saúde também evidenciou a carga de racismo e condições sociais dos feminicídios no Pará: de 2005 a 2015, 343 mulheres negras e pardas foram assassinadas, enquanto 35 assassinadas foram mulheres brancas.
Há muito pelo que lutar. Há muito para mudar. E o feminismo negro, a resistência das mulheres negras, é fundamental, porque somos as filhas e netas das mulheres que sobreviveram ou morreram nos piores destinos da história.
O governo Bolsonaro agrava essa situação no que diz respeito à luta e aos direitos das mulheres negras e periféricas. Recentemente, a ministra Damares Alves chegou a culpar crianças por estupros ocorridos no Marajó, alegando que não usam calcinha e, por isso, ocorrem as violações. Bolsonaro e Damares são racistas, machistas e demonstram um desdém e uma ignorância com o povo paraense que é de cortar! O Pará foi o estado que mais se declarou preto e pardo no Brasil em 2013, estando sempre entre as três primeiras unidades da federação com esse índice. Uma população que não é minoria numérica, mas um povo em minoria social: uma estrutura de racismo.
Damares sabe que Marajó acumula o triste ranking de alguns dos piores IDHs do mundo. Trata-se da miopia política a que estamos submetidas neste governo absolutamente incompetente, que trata a cultura do estupro e a extrema pobreza como uma piadinha.
Não se pode falar da luta das mulheres negras, sobretudo na Amazônia, sem se falar na luta contra o racismo institucional, sem falar do machismo assassino, sem falar da cor e da classe social de quem é trancafiado nos presídios. Mas, também, não se pode falar da luta das mulheres negras na Amazônia sem falar da dura sina de criar e educar solitariamente filhos e netos, sem falar de violência sexual na infância e sem falar de fome.
No país, somos 55,6 milhões de mulheres, e 42% das famílias negras são chefiadas por mulheres, com 58,2% da renda das mulheres brancas e uma solidão afetiva de quem foi por muito tempo obrigada a desfazer laços.
Não nos resta outra alternativa que continuar lutando. A ancestralidade está em nós. Os ritmo está em nós. O amanhã está em nós. Que a vida daquelas que já tombaram, que a esperança de um futuro de vida, e não de sobrevida, nos guie! Resistência, mulherada!
Romperemos essa estrutura! Nada sobre nós sem nós!
Lívia Duarte
Presidenta do PSOL Belém e Integrante Da Executiva Nacional do PSOL

